APRENDIZAGEM
SIGNIFICATIVA
A
GIA E O FORMOL
Gilberto Bento de Andrade1
Durante
minha infância, em um belo dia de aula, o professor pediu-nos que
capturássemos uma gia. Aquela missão deixou-me um tanto perplexo
pois nunca nenhum professor em escola nenhuma havia solicitado tal
tarefa. Seria o nosso novo mestre um energúmeno? Mesmo contrariados
com tal atrocidade, saímos à cata da gia. Ao chegarmos ao rio
Ceará, bastante conhecido por sua especialidade em esquistossomose,
caímos às suas margens a procura da presa maior possível. De uma
coisa estava eu certo: poderíamos até não encontrar anfíbio
algum, mais com certeza encontraríamos uma barriga d'água.
As
margens do rio era arenosa e aparentemente alí não existia nenhuma
gia, nem grande nem pequena. Caminhamos em duplas nessa caçada
épica, rio acima rio abaixo, durante algumas horas até que
finalmente uma dupla acenou haver encontrado uma das grandes. O grupo
reuniu-se novamente. Foi então que começou o dilema; uns diziam que
não era uma gia e sim um cassote, outros diziam que não era nem gia
nem cassote e sim um sapo. Chegaram até a afirmar que era uma
perereca. Por sorte, um senhor que pescava às margens interveio e
falou com exatidão de um mestre: - É uma perereca! - Voltamos a
estaca zero.
Depois
de muitas horas de mulecagem, correndo atraz das meninas com a pereca
na mão, capturou-se a famigerada gia que se debatia freneticamente
mexendo pernas e braços como se estivesse nadando, agarrada pelo
pescoço. Era uma bela gia, úmida e macia, de pele escura em tom
verde musgo. Tinha o ventre pálido, frio e escorregadio. As pernas
levemente desnutridas e alongadas, quase sempre dobradas, lembrava
muito a figura de uma certa amiga, com grande diferença na textura.
Colocamos a anfíbia num saco d'água, apesar de alguns muleques mais
malinos sugerirem um pau-de-arara, e
levamos a mesma à casa do professor. Esse não falou nada,
limitou-se a agradecer e a desejar um bom dia. Fiquei quase em paz a
não ser pela dúvida que teimava em me acompanhar: para que o
professor queria uma gia e ainda mais, das grande? Será que era para
a merenda escolar? No dia seguinte eu saberia ao ir para a escola.
Temeroso com o destino da gia, dormi quase sossegado.
Finalmente
o astro rei reapareceu. Ao chegar na escola, que era apenas uma sala
de aula, os curumins aguardavam anciosos e aflitos para ver como se
comportava a anfíbia fora do seu habitat. Ao entrar e desejar um bom
dia bem maquiavélico, o professor abriu uma caixa paralelepípedica
metálica e... lá estava nossa quase-gia de braços e pernas abertas
para o ar, mergulhada em um líquido malcheiroso mesmo. O professor
retirou-a desse líquido e estendeu-a na horizontal em cima de uma
tábua dessas de cortar carne... meteu-lhe vários alfinetes por todo
o corpo singindo-a à tábua de barriga para cima... sacou de um
bisturi e foi metendo-lhe o ferro no sentido vertical de cima para
baixo e, explicando para toda a classe, que indagara, que aquele
líquido em que a nobre gia se encontrava era um tal de formol, e que
a anfibia fora solicitada para estudo do aparelho digestivo por ela
ter o mesmo muito parecido com o dos seres quase humanos. Nisso o
energúmeno tinha toda razão.
1 Especialista
em Ciência da Informação -Prof. Rede de Ensino Município de
Maracanaú- Ceará
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