quinta-feira, 13 de março de 2014


APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA
A GIA E O FORMOL
Gilberto Bento de Andrade1





Durante minha infância, em um belo dia de aula, o professor pediu-nos que capturássemos uma gia. Aquela missão deixou-me um tanto perplexo pois nunca nenhum professor em escola nenhuma havia solicitado tal tarefa. Seria o nosso novo mestre um energúmeno? Mesmo contrariados com tal atrocidade, saímos à cata da gia. Ao chegarmos ao rio Ceará, bastante conhecido por sua especialidade em esquistossomose, caímos às suas margens a procura da presa maior possível. De uma coisa estava eu certo: poderíamos até não encontrar anfíbio algum, mais com certeza encontraríamos uma barriga d'água.
As margens do rio era arenosa e aparentemente alí não existia nenhuma gia, nem grande nem pequena. Caminhamos em duplas nessa caçada épica, rio acima rio abaixo, durante algumas horas até que finalmente uma dupla acenou haver encontrado uma das grandes. O grupo reuniu-se novamente. Foi então que começou o dilema; uns diziam que não era uma gia e sim um cassote, outros diziam que não era nem gia nem cassote e sim um sapo. Chegaram até a afirmar que era uma perereca. Por sorte, um senhor que pescava às margens interveio e falou com exatidão de um mestre: - É uma perereca! - Voltamos a estaca zero.
Depois de muitas horas de mulecagem, correndo atraz das meninas com a pereca na mão, capturou-se a famigerada gia que se debatia freneticamente mexendo pernas e braços como se estivesse nadando, agarrada pelo pescoço. Era uma bela gia, úmida e macia, de pele escura em tom verde musgo. Tinha o ventre pálido, frio e escorregadio. As pernas levemente desnutridas e alongadas, quase sempre dobradas, lembrava muito a figura de uma certa amiga, com grande diferença na textura. Colocamos a anfíbia num saco d'água, apesar de alguns muleques mais malinos sugerirem um pau-de-arara, e levamos a mesma à casa do professor. Esse não falou nada, limitou-se a agradecer e a desejar um bom dia. Fiquei quase em paz a não ser pela dúvida que teimava em me acompanhar: para que o professor queria uma gia e ainda mais, das grande? Será que era para a merenda escolar? No dia seguinte eu saberia ao ir para a escola. Temeroso com o destino da gia, dormi quase sossegado.
Finalmente o astro rei reapareceu. Ao chegar na escola, que era apenas uma sala de aula, os curumins aguardavam anciosos e aflitos para ver como se comportava a anfíbia fora do seu habitat. Ao entrar e desejar um bom dia bem maquiavélico, o professor abriu uma caixa paralelepípedica metálica e... lá estava nossa quase-gia de braços e pernas abertas para o ar, mergulhada em um líquido malcheiroso mesmo. O professor retirou-a desse líquido e estendeu-a na horizontal em cima de uma tábua dessas de cortar carne... meteu-lhe vários alfinetes por todo o corpo singindo-a à tábua de barriga para cima... sacou de um bisturi e foi metendo-lhe o ferro no sentido vertical de cima para baixo e, explicando para toda a classe, que indagara, que aquele líquido em que a nobre gia se encontrava era um tal de formol, e que a anfibia fora solicitada para estudo do aparelho digestivo por ela ter o mesmo muito parecido com o dos seres quase humanos. Nisso o energúmeno tinha toda razão.


1 Especialista em Ciência da Informação -Prof. Rede de Ensino Município de Maracanaú- Ceará